Existe uma crença muito difundida segundo a qual uma faca oferecida corta a relação entre quem a dá e quem a recebe. Existe também uma maneira consagrada de a contornar, e custa uma moeda.
A entrada da Wikipedia sobre facas regista a crença sem rodeios: se uma faca for dada como presente, a relação entre quem dá e quem recebe será cortada. Regista na mesma frase o remédio: em troca do presente entrega-se algo como uma pequena moeda, uma pomba ou outro objeto de valor, a título de “pagamento”. A faca fica então comprada em vez de oferecida, e a crença não se aplica.
A forma prática é, pois, simples: entregue a faca e peça a quem a recebe que lhe devolva uma moeda. Na prática isso faz-se muitas vezes com leveza, como uma pequena cerimónia em vez de uma transação, e uma moeda colada dentro da caixa com uma nota a explicá-la cumpre a mesma função. O que conta é que quem recebe dê alguma coisa, por mais simbólica que seja.
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Duas coisas que esta página não vai sustentar. A fonte descreve-a como uma crença comum sem a prender a nenhum país em particular, e o mesmo costume está fortemente associado à maneira chinesa de oferecer: não é, portanto, uma regra especificamente japonesa e não deveria ser apresentada como tal. E se a um determinado destinatário a coisa importa ou não, ninguém lho pode dizer — a razão para saber é que respeitá-la custa uma moeda e ignorá-la custa vir a sabê-lo depois.
Nada disto muda que faca comprar; disso tratam os guias mais abaixo. Muda o que vai dentro da caixa. Se comprar para alguém que possa partilhar a crença, uma moeda e uma linha de explicação não custam nada e afastam por completo a questão; e se não a partilhar, ter-lhe-á dado, juntamente com o objeto, um pequeno pedaço da cultura de onde ele vem.
Esta página trata do ato de oferecer e não da faca, por isso a ligação é a prateleira e nada mais. O guia sobre lateralidade é o que vale a pena ler antes de comprar para outra pessoa: uma lâmina de bisel único é afiada para uma das mãos, e isso não é um pormenor que se corrija depois, nem que quem recebe possa referir com à-vontade.
As fontes estão em inglês; os seus títulos ficam por isso no original.
A madeira de agar é a mesma matéria em duas tradições: o oud no Golfo, o jinkō e o kyara no incenso japonês.
Os guias de limpeza em inglês tratam o bolor numa vaporeira de bambu como algo que se esfrega até sair.
Uma lâmina de aço-carbono descolora-se, e duas coisas diferentes parecem-se: uma é uma camada protetora que se quer, a outra é um dano.
Uma lasca não é o fim da faca.
Um gume japonês é fino porque o aço é duro, e gumes finos e duros lascam.
Perguntar se uma faca damasco é “autêntica” tem uma resposta incómoda: nenhuma moderna o é, porque a palavra deixou de significar o que significava.
Um donabe conduz muito mal o calor.
Um donabe é feito para a chama.
O barro japonês sem vidrado é poroso.
Uma chaleira de ferro sem revestimento passa de facto ferro para a água, e na forma facilmente absorvida.
Os pauzinhos japoneses são pontiagudos onde os chineses são rombos, e essa é uma diferença de conceção com uma razão de ser.
Um cabo japonês é encaixado por atrito em vez de aparafusado, e é por isso que pode ser substituído — e por isso é poroso como um cabo ocidental não é.
Não é o corpo de porcelana que a máquina de lavar louça ameaça.
Vendem-se duas coisas com o nome de kintsugi, e saber se se pode comer a partir do resultado não se decide por qual delas usou.
O kintsugi é uma reparação com laca urushi e pó de metal precioso.
Uma lâmina japonesa a 61 HRC não é uma versão mais dura de uma ocidental a 56.
Um pincel de pelo natural e um sintético não formam uma escala de qualidade.
“Ceremonial grade” não é uma norma.
Um chasen é talhado a partir de uma única peça de bambu, pelo que um dente partido não pode ser substituído — e o número de dentes é uma indicação para uma tarefa, não uma nota.
Quatro nomes de facas japonesas de duplo bisel, duas das quais são a mesma faca.
O aço azul é aço branco com elementos de liga acrescentados.
Uma faca de um só bisel (kataba) é afiada para uma única mão.
O sumi e a tinta da China são ambos fuligem e ambos pretos, e depois de secos comportam-se de maneira diferente.
Numa chaleira de ferro nova aparecem manchas vermelhas logo na primeira semana.
Parecem o mesmo objeto.
A laca é muitas vezes vendida como naturalmente antibacteriana.
O urushi não curado é um alergénio que provoca erupção cutânea na maior parte das pessoas.
O urushi é uma película de resina natural, não uma demão de verniz.
A própria norma industrial japonesa define o washi, e a definição contém o problema: diz que hoje a maior parte do washi é feita à máquina a partir de pasta química.
O número de grão de uma pedra de amolar japonesa não é uma medida comparável entre fabricantes.